Estudante de direito: vocação ou interesse?

Há cerca de um ano ingressei na faculdade, especificamente no curso de direito. Contudo, minha caminha para estar aqui começou muito tempo antes! De personalidade e gênio forte, altamente falante e com uma pequena tendência a ser “nerd” e a paranóia quanto se refere a estudos: aqui estou! Não faço nada pela metade e vou fundo quando me resolvo por alguma coisa, e apesar dos meus 29 anos já fui mais jovem e já tive algumas dúvidas. Inicialmente por amor aos meus professores e pela língua portuguesas e as demais no geral, quis fazer letras (mesmo que minhas professoras de português e de inglês à época tenham me dito que minha vocação era para Direito), depois comecei a pensar em jornalismo (mesmo que naquela época, então no ensino médio, meu professor de química achava que eu deveria fazer química) eu ainda me sentia insegura, afinal jornalismo não deixa todo mundo em posição 100% confortável, economicamente falando, pois paixão pela profissão é outra coisa. Aí veio o teste vocacional e “deu” tudo isso: jornalismo, direito, etc. O que fazer? Viver é caro! Vamos trabalhar! O que vier depois veio!
Quando eu tinha por volta de uns 13 anos, estudava em escola particular (era bolsista, por assim dizer) e como em todo escola particular os professores tentam de toda forma fazer você escolher uma profissão e uma instituição universitária. Sempre fui extremamente realista, e não me abalo por desejos que não posso alcançar. “Então! Já sabe em qual instituição vai estudar e qual curso irá fazer?” A resposta foi simples e direta: não irei! O que provocou indignação, mas como alguém que é pobre (admito sem pudor) poderá cursar o ensino superior? Não me iludo fácil! Sei das minhas limitações, o que posso ou não fazer e não dou corda a “delírios”.
O tempo passou, a vontade existia, mas não a alimentava...era impossível. Sempre gostei de ler, estudar. Trabalhei em quase tudo: professora e auxiliar em aulas de artesanato em madeira (neste cargo a minha patroa achou-se no direito de um dia puxar minha orelha porque ela tinha deixado a sala de aula da última noite suja, e claro mesmo que eu não estivesse lá a culpa tinha que ser de alguém), atendente de minimercado, babá, faxineira (é), vendedora de calçados (onde era constantemente assediada por representantes comerciais idosos, babões, babacas e nojentos, fora a falta de educação das colegas que eram muito grosseiras, clientes tão ruins quanto as próprias colegas e as jornadas absurdas de trabalho, com pouco tempo de folga), e por fim fui secretaria num escritório de advogados (neste ponto recuperava-me de uma crise de stress muito forte, pois havia perdido cerca de 8kg e estava com meus nervos em frangalhos do trabalho no comércio como vendedora, mas para que ninguém dissesse que eu era preguiçosa e que não queria trabalhar, mesmo estando em um período de recuperação e descanso indicados pelo médico, aceitei a nova proposta). De início acha entediante ficar sentada diariamente, parecia que iria morrer por falta de movimentação, mas aos poucos, e motivada pelo medo (risos) que sentia da minha patroa, comecei a ler os volumes dos processos, por que não queria parecer burra nem ficar perguntando toda a hora como funcionava tudo (além de ter medo de perguntar algo e ser xingada como resposta)...assim surgiu o amor pelo Direito do Trabalho. Veja bem, eu entendia muito bem como funcionavam as relações de trabalho, as piores possíveis posso dizer com toda certeza, pois havia passado por isso diariamente desde meus 15 anos (nesta época contava com 19 anos). Resolvi que era o que gostaria de fazer, mas claro não sabia como.
Sempre achei o estudante de direito, o recém formado, o advogado com longa carreira algo muito arrogante, esnobe e de conduta duvidosa, claro que percebi ao longo dos anos que nem todo mundo é assim. O que me entristece muito, neste momento, são as atitudes arrogantes não só de alguns advogados, mas dos próprios estudantes (não são todos, eu sei, mas sim uma boa maioria), que nem sequer formaram - se, mas já apropriam - se da mascara da arrogância e prepotência. Se você for ligar a televisão é o que tem: estudantes de direito cometendo pequenos delitos, atrocidades, etc. E o pior é que sempre se valem do status de estudarem, como se justificasse, com se os isentasse de responsabilidade, como se fossem deuses. Isso tudo me causa imensa vergonha! Muitas vezes eu me pego pensando se é mesmo isso que eu quero pra minha vida, por que a vergonha alheia é grande, vergonha por atos e atitudes que eu sequer penso em praticar!! No final das contas os bons pagam pelos maus, e nos somos todos tachados de desonestos e não confiáveis, quase uma classe presidiária nova.
Outra coisa que eu não entendo é como alguém que nasce em “berço de ouro”, e que sequer tenta entender a grande massa, pode atuar de forma satisfatória e imparcial (me refiro aqui no âmbito do direito do trabalho mesmo)! Eu vivencio o que é trabalhar, ser empregado, logo sei como tudo funciona. Desculpe-me os descrentes estudantes que ou são filho de empresários, ou são micro empresários, ou apenas são sustentados pelos pais, mas ninguém quer assinar a CTPS de seus funcionários, por que ficando fora da lei não há necessidade de pagar um salário mínimo, não se gasta com contador, não se recolhe FGTS, nem INSS, tudo fica mais fácil e mais barato. Encargos são caros, mas se você não pode, ou não quer pagá-los não tenha funcionários, se você necessita, bem, é como sempre digo: você prefere “incomodar-se” mais tarde tendo que comparecer a uma audiência ou prefere fazer tudo direitinho?? Por que no fim o empregado sempre “era um vagabundo, sem vergonha” e o advogado um aproveitador. Será mesmo?? Se não existe nenhuma ponta solta, não há reclamatórias trabalhistas! “Ah, mas o advogado pediu tudo! Até o que o fulaninho não tinha direito!” Aqui admito uma pequena ingenuidade minha e um ponto de vista que quero mesmo mostrar: nem todos os advogados são bonzinhos, assim como, nem todos são maus! Sempre trabalhei (ainda bem!) com pessoas muito honestas. Nunca fui instruída a pedir mais do que é de direito de cada pessoa, sempre opto pelo rito sumário e apesar de saber por que alguns advogados optam, não o faria, e nem quero criticar ninguém: cada um sabe o que faz! Entendo que empresários ficam irritados ao deparar-se com pedidos enormes e valores altíssimos, quando na realidade seus ex-funcionários têm apenas um pequeno saldo de salário, por exemplo, a receber (e muitas vezes até mesmo o reclamante nem sabe o que o seu advogado constituído está pedindo). O fato de pedir, não significa em absoluto que a pessoa vai ganhar, por isso mesmo não entendo a indignação da parte empregadora.
Mas o que me deixa realmente indignada é que meus colegas de curso acham e digam em alto e bom som que advogados trabalhistas são a pior espécie do operador do direito, são a escórias e que são uma vergonha à classe! Acho que tudo isso, aliado ao fato de que pretendo seguir este caminho, não deixa de ser uma discriminação antecipada, já com forte propósito de desvalorizar e denegrir o profissional da área! Mas não é só no mundo universitário que escuto isso, pois já ouvi comentários maldosos acompanhado de risadas debochadas de advogados de outras áreas do direito quando digo que trabalho nesta área e pretendo segui-la no futuro! Que eu estaria acobertando vagabundos ao fazer reclamatórias e tentando fazer os mesmos se apropriarem de algo que não é justo nem deles por direito, que o direito do trabalho é assistencialismo!
Oras! Não vejo como assistencialismo! A CLT é  uma norma legislativa de regulamentação das leis referentes ao Direito do Trabalho e do Direito Processual do Trabalho no Brasil! Existe lei que ampara o trabalhador e a Justiça existe para ser provocada! Não há nada de ilegal nisso, nem sequer é desonroso!! Vejo muita gente morrendo de vergonha por ter que ingressar com processo, por que a sociedade vê isso como errado! Até quando o estudante de direito vai ser tão burguês? Tão desalmado? Tão mesquinho? Tão desrespeitoso com o colega futuro operador do direito do trabalho? Eu não gosto de Direito Penal, nem por isso saio por ai achincalhando a moral (até mesmo previamente) de quem gosta ou trabalho na área!!!!
Outro grande defeito de alguns estudantes de direito: interesse apenas por dinheiro. Eles não estão aqui por amor à profissão, mas sim pelo status e dinheiro. Longe de mim dizer que um dos atrativos da profissão não seja este, mas se eu não gostasse dela, estaria há milhões de quilômetros. E quanto ao status, bem, eu não sou ninguém na ordem das coisas, sou apenas uma pessoa comum, não sou melhor que ninguém, sou uma pessoa em constante aprendizagem, e sei que continuarei a ser assim após formada até por que meu principal objetivo de vida, além de conseguir meu sustento, é fazer algo de bom no mundo, ajudar de alguma forma, deixar uma marca nem que seja pequena. Há algum tempo sei que é quase uma inocência de minha parte, já me desiludi com quase tudo, inclusive com leis, mas ainda tenho meus princípios e me baseio neles para seguir.
Vamos fazer assim: aprendam primeiro e falem depois! Desçam do pedestal! Sejam humildes! Vivenciem de verdade a vida, pois não é sendo apenas um lado da moeda que vocês serão imparciais e justos! Quem trabalha, quem sofre diariamente com as condições em que se encontram as relações “patrão x empregado” sabe do que eu estou falando!!! Sejam mais empáticos e menos interesseiros.

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